Entrevista com Domingos Guerreiro, dos PUROROCK, banda que fez sucesso no Sol da Caparica

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Os PUROROCK foram a banda sensação na abertura do Festival Sol da Caparica, oriundos de Palmela, a banda liderada por Domingos Guerreiro, foi a agradável surpresa.

Formada em 2017, é composta por experientes músicos, irreverentes, que irradiam muita energia em palco, mostram que o rock não tem idade, é actual e com futuro. Quisemos saber mais e fomos ao encontro de Domingos Guerreiro, mentor do projecto, no restaurante TAJ BOM, num ambiente acolhedor, segundo ele, um dos melhores restaurantes da zona de Palmela.

FOCUSMSN: Domingos, como te surgiu o gosto pela música, em particular pelo rock cantado em português, e o que te levou a avançar com este projecto musical?

Domingos: Nos idos anos 80, eu já tinha tido uma banda que eram os ‘Prós&Contras’, nessa altura vivia-se os anos loucos do denominado boom do rock em Portugal. A banda tocava algumas músicas originais e covers de outras bandas de sucesso naquela época. Foi nesta altura, da minha adolescência, que nasceu o gosto pelo rock e que perdura até hoje.

Em relação aos ‘Prós&Contras’, teve vida curta, eu era muito jovem, não tinha autonomia de mobilidade, tínhamos dificuldade em ensaiar, ia a boleia de Palmela para Setúbal, ao frio e à chuva, não tinha condições. Tinha vindo de Moçambique, morava sozinho, vivia uma fase ‘psicadélica’ da minha vida, de modo que o projecto ficou-se pelo caminho, mas sempre tive na mente que quando tivesse a vida estabilizada retomaria a ideia. A oportunidade surgiu em 2017, e mais de 30 anos depois nasceram os ‘PUROROCK’.

F: Em que bandas nacionais e/ou internacionais te inspiraste?

D: Uma banda que me inspirou muito e que acompanhei em diversos concertos por essa Europa fora foram os Rolling Stones, cá dentro inspirei-me naquele que considero ser o Mick Jagger nacional, que é o João Grande dos TAXI, nos Xutos & Pontapés, nos UHF, em particular no AMR que é um sobredotado nas letras que escreve, na música e na composição, tem uma cultura imensa e conseguiu manter ao longo de todos estes anos os UHF no topo do rock nacional, merece toda a minha admiração. Para mim ele é o número um do rock português.

F: Achas que o rock é um género musical que passou de moda?

D: O rock não passou de moda, de modo algum, os ‘rockeiros’ é que pararam no tempo, ficaram presos a estigmas e a formatos pré-estabelecidos e não acompanharam a evolução geracional, o público jovem não quer ver uns tipos unicamente vestidos de preto em palco, alguns que mal se mexem, com riffs estridentes de guitarra, querem luz, cor, animação, irreverência e muita adrenalina.

E neste quesito tiro o chapéu ao João Grande (TAXI), que puxa pelo público, com coreografias arrojadas, roupas diferenciadas, é este o caminho. Uma ‘guerra’ que tive com os meus músicos foi na forma de vestir, traziam hábitos das bandas onde tocavam, mas aos poucos mudamos a mentalidade e hoje estamos em sintonia.

Tenho falado com alguns músicos que estão no mercado há mais de 30 anos que se queixam que as televisões não os convidam, nós temos que nos adaptar à realidade actual, ver o que o público procura, ver o que lhes capta mais atenção e dentro do nosso género musical ir ao encontro dessa realidade e não o inverso.

Actualmente o rock vive dos êxitos do passado, os seguidores são maioritariamente gente que era adolescente aquando do boom do rock em Portugal e que por saudosismo ainda vai a alguns concertos. Na minha opinião, as bandas a quem muito devemos não precisam de fazer melhor, precisam de fazer diferente, para captar juventude, e as novas bandas olharem à realidade actual e não tentar imitar o que se fazia há 40 anos atrás.

F: Mas os meios de divulgação, nomeadamente a rádio e principalmente a televisão, parece que se divorciaram do rock nacional…

D: A televisão passa aquilo que dá audiência, passa aquilo que as pessoas querem ver e os ‘rockeiros’ teimam em não procurar outras soluções para contornar a situação e cair no goto do público. Olha o exemplo do fado, fadistas como Ana Moura e Cuca Roseta, entre outras, ocupam o palco em festivais pop/rock, com público jovem a cantar o fado com uma outra roupagem, é disto que o rock precisa, uma nova abordagem. Eu canto para ter audiência, se não conseguir captar a atenção do público então não vale a pena, canto no chuveiro.

Resumindo, o rock precisa de um som apelativo, muita cor, luz e movimento, e não uns tipos vestidos com roupa escura, num ambiente de pouca luz e um palco cheio de fumo onde mal se veem. Infelizmente o rock vive do passado, de bandas que não deixaram morrer o rock casos dos UHF, Xutos & Pontapés, Alcoolémia e pouco mais, uma luz se acendeu com o regresso dos TAXI, mas quando estes acabarem como será?

F: A formação da banda PUROROCK nasceu de uma forma pouco convencional, queres contar como foi?

D: (risos) Eu estava num bar de música ao vivo que se chamava Santiago, aqui em Palmela, ao assistir à actuação de uma determinada banda, veio-me à memória o que ficou para trás em termos musicais e a vontade de retomar a ideia de formar uma banda, naquele momento senti o clique.

Falei com o dono do bar e perguntei ‘Santiago, se eu formar uma banda deixas-me vir tocar aqui?’, marcamos para daí a dois meses para que eu pudesse encontrar os músicos, ensaiar e aparecer em palco. Fui logo falar com o baterista, que é um amigo da adolescência, os outros acabei por encontrar entre os vizinhos (risos).

Antigamente fazia muitas festas em minha casa e para não haver problemas com a vizinhança convidava-os para estarem presentes, um dia bato a porta do Beto para o convidar e conversa puxa conversa, às tantas ele diz-me ‘sou engenheiro de formação mas gosto é de música’, ‘mas tocas algum instrumento?’, perguntei eu, ‘toco guitarra’, diz ele, pronto estava encontrado o guitarrista (risos), o baixista foi numa esplanada, tinha-o visto tocar num bar, cheguei ao pé dele e perguntei ‘olha lá, tocas baixo não tocas?’, ‘sim’, diz-me ele, ‘não queres tocar com a banda que estou a formar, ja tenho concerto marcado e só me falta o baixista?’, e assim nasceram os PUROROCK.

O curioso desta situação foi a banda nem existir e já ter um concerto marcado. No concerto tocámos covers dos UHF, TAXI, Xutos & Pontapés, Paulo Gonzo, etc, foi um sucesso, o bar estava a abarrotar de gente. Neste show actuaram o Mário Costa (bateria), Humberto Delgado (guitarra), Pedro Correia (baixo), Rita Vale (segunda voz), Vasco Avença (Saxofone) e eu na voz.

F: És uma pessoa que viajas muito, estás atento ao que te rodeia, é nestas viagens que encontras inspiração para escreveres as letras das tuas músicas?

D: As letras que escrevo são sentidas, são vivências que tive, ‘És PUROROCK’ foi escrita durante uma das minhas viagens com cinco amigos ao Peru, íamos num jeep a cantar a caminho de Machu Picchu quando lá chegamos tinha a letra da canção e a música na minha cabeça. A inspiração vem principalmente da saudade do meu país, do meu distrito e da minha vila.

F: Tens um álbum de originais já editado ‘Vestida de Branco’ (2020), produzido pelo Flavio Serrinha e um EP produzido pelo Sergio Corte-Real (UHF) e pelo Pedro Madeira (Alcoolémia) mas preparas-te para lançar um segundo álbum, queres revelar?

D: Tenho já algumas letras escritas e a sonoridade a ecoar na minha cabeça, nomeadamente a canção ‘Raiva de Amor’ que gostaria de cantar em dueto com uma cantora que tenho na ideia, mas que quando for oportuno irei convidar, tenho a ‘Estrada É Tua’, dedicada aos motards, uma ideia do Emanuel, que é uma das pessoas que mais admiro na música portuguesa e ‘Amor Amor’ que escrevi na véspera da actuação no Sol da Caparica e mais umas outras.

F: Nestes vossos cinco anos de actividade para que público e em que palcos costumam actuar?

D: A primeira vez que fomos abordados para tocar, por sinal uma pessoa aqui de Palmela, pediu-nos dinheiro (risos). Depois da nossa estreia no bar do Santiago, tocamos no cine-teatro São João onde apresentamos o nosso EP ‘És PUROROCK’, nas Festas das Vindimas, onde gostaria de voltar a tocar como cabeças de cartaz, e em vários outros locais.

F: Depois da actuação no Sol da Caparica que ambições tens para o futuro? A partir daqui há um novo PUROROCK?

D: É verdade, depois do Sol da Caparica tudo mudou, a começar logo pelos músicos que compõem a banda, ficaram com outra perspectiva das potencialidades dos PUROROCK, muito mais motivados, mais até do que quando foram à televisão. Digamos que depois deste festival e da aceitação que tivemos por parte do público jovem, que cantava connosco o refrão das nossas músicas, fez-nos sentir que podemos ir mais além.

Nesta altura, quero agradecer aos músicos que me acompanham e acompanharam ao longo destes cinco anos que são o Mário Costa (bateria), Humberto Delgado (guitarra) e o Luis Pão Alvo (baixo) que estiveram em palco no Sol da Caparica.

Estivemos também muito bem acompanhados, na música ‘Volta Para Mim’, pelas alunas do conservatório de Palmela com Raquel Pernas (violoncelo), Maria Pires (viola de arco), Margarida Dentinho (violino) e Ana Marta (violino).

Destaco ainda o Pedro Correia (baixo), Ivo Gomes (baixo), Vasco Avença (saxofone), Rita Vale (segunda voz) pessoas que acrescentaram muito à banda e que infelizmente por motivos pessoais não podem continuar a dar o seu valioso contributo musical, ao Telmo Gonçalves (baixo), Francisco Nuno (bateria) e ao Gonçalo Rodrigues (guitarra) que são parte integrante dos PUROROCK.

F: A tua irreverência em palco, a dinâmica que impuseste ao concerto, captou a atenção do público. Sendo a banda de abertura do festival, ainda assim, tiveste uma plateia imensa, que foi aumentando durante o concerto.

O que sentiste em palco vendo tanta gente empolgada com a vossa actuação e a cantar o refrão das tuas músicas?

D: Vieram-me as lágrimas aos olhos, na véspera o Mário Costa nem dormiu (risos), foi uma emoção enorme e uma situação para a qual não estava preparado, foi completamente inesperado. Imagina estares num festival desta dimensão e à segunda vez que cantas o refrão estarem jovens, com um terço da minha idade, a cantarem comigo e a fazerem corações, foi inacreditável. O Sol da Caparica ficará para sempre marcado na história dos PUROROCK e nas minhas memórias, só por termos chegado aqui, já valeu todo o esforço e tempo dedicado à banda.

F: No trajecto da banda que pessoas, para além dos músicos que já mencionaste, te ajudaram a trilhar o caminho?

D: A pessoa que mais acreditou em nós, e que nem sequer está ligado ao rock, mas que viu méritos nas letras, nas músicas, na banda, na minha irreverência em palco e nas minhas ideias, foi o Emanuel. Inclusive, levou-nos ao programa dele e ao Camião, onde o rock não é o género musical cabeça de cartaz, não sei se com a anuência do director de programas da SIC, Daniel de Oliveira, o certo é que o Emanuel teve a coragem de acreditar nas nossas potencialidades e no nosso carisma.

E recentemente o Zahir Assanali, CEO do Grupo Chiado, por nos ter convidado para actuar no Festival Sol da Caparica. Gostaríamos um dia de voltar ao Sol da Caparica, mas também pisar os palcos de outros grandes festivais, nomeadamente RockInRio, SuperBock SuperRock, Vodafone Paredes de Coura e muitos outros, são ambições que tenho, o sonho comanda a vida.

F: Normalmente distribuis a tua parte do cachet a instituições humanitárias de Palmela. A que se deve este teu altruismo?

D: Tem a ver com a minha história de vida, quando regressei de Moçambique com 11 anos, vivia na rua, comecei a trabalhar muito cedo, mas sempre com a ambição de querer ser alguém na vida e deixar alguma marca. Aos poucos, com esforço e dedicação, fui subindo a pulso e hoje tenho que agradecer aqueles que nunca me viraram as costas e me apoiaram porque viram em mim potencialidades no trabalho, na honestidade e nas boas energias que transmito. Ao ponto de ter vinhos dos melhores enólogos do país com marca registada PUROROCK, desde a Casa Ermelinda Freitas, e outros produtores do distrito, até à Niepoort em Gaia.

No palco do Sol da Caparica cantei a música ‘Soldados da Paz’, que faz parte do disco ‘Vestida de branco’, vestido a rigor, numa singela homenagem a estes homens e mulheres que dão a vida para nos proteger e ajudar.

F: A banda tem sido muito acarinhada pelas gentes de Palmela, idealizaste um espaço próprio que vais construir. Queres falar disso?

D: Tenho em projecto um espaço, que está para aprovação na CMP, que será futuramente o PUROROCK/CAFÉ, em que existirão condições para música ao vivo, e onde se encontrarão todos os néctares que poderás imaginar da marca PUROROCK e irá estar aberto diariamente.

Além da música, terei também workshops de vinhos com os produtores e jantares vinícolas, assim como a Fogaça de Palmela, com o logotipo da banda, o pastel com o moscatel PUROROCK feito pela confeitaria São Julião.

F: Depois de algumas vozes terem criticado a organização do Festival Sol da Caparica com que opinião ficaste sobre o festival?

D: Da nossa parte só podemos elogiar, tudo correu bem connosco desde as condições em palco, ao sound check, aos camarins, a maneira como fomos recebidos, o catering, foi tudo óptimo e correu às mil maravilhas, foi sublime, muito além daquilo que poderíamos ter imaginado.

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