‘Olhos nos Olhos’ entrevista com João Grande, o carismático líder e vocalista da banda portuense, TAXI

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A talentosa banda de rock TAXI, formada em 1979, era inicialmente composta por João Grande, Rui Taborda, Henrique Oliveira e Rodrigo Freitas, mais de 40 anos depois, apenas João Grande (vocalista) e Rui Taborda (baixo), são os membros fundadores que continuam a dar vida à mítica banda do Porto.

Numa série de entrevistas, a músicos/bandas que marcaram a chamada era do ‘boom’ do rock português, nos longínquos anos 80, a FOCUSMSN foi até ao Porto conversar com João Grande, falou-se do passado, da actualidade e, naturalmente, de projectos futuros.

FOCUSMSN: João, muito obrigado pela disponibilidade e simpatia com que me estás a receber. Antes de entrar no tema TAXI, gostaria de saber como viveste aquele período pós-revolucionário e se essa sensação de liberdade, principalmente a de expressão, te viria a influenciar nas tuas músicas?

João Grande: Olha, eu tive um avô que esteve muito tempo preso por ser contra o Salazar, e descobrimos há pouco uma coisa muito interessante, quando fomos tirar a certidão de nascimento do meu pai, que já faleceu, nela vinha a morada onde o meu avô ‘morava’ na altura em que o meu pai nasceu, que era o Tarrafal, onde ele esteve preso.

De maneira, que embora muito jovem, ouvia as histórias dele a dizer mal do Salazar e da ditadura, aliás ele esteve preso bastante tempo com João Sores, pai do Mário Soares.

Só estas histórias é que eram diferentes porque para mim e para os meus amigos não se passava nada, era tudo absolutamente normal, o nosso hobby era a música e a política passava-nos completamente ao lado.

Curiosamente, tínhamos um concerto marcado para o dia 25 de Abril de 1974, no Liceu D. Manuel, onde estudávamos. Eu, o Rui Taborda e mais dois amigos, criamos uma banda em 1972, chamada Sticky Fingers, inspirado num disco dos Rolling Stones, na altura só tocávamos músicas deste grupo, e íamos tocar ao anfiteatro daquela escola.

Logo pela manhã, o meu pai avisou-me da revolução e disse para não sairmos de casa, mas nós tínhamos aquele compromisso marcado e lá fomos. É claro que nos disseram logo que não podia haver concerto, ligamos então o rádio às colunas e ficámos a ouvir os desenvolvimentos revolucionários.

Uma coisa que achei absolutamente incrível, é que logo no dia seguinte, aquele anfiteatro ficou lotado de gente para um comício, não sei como é que de repente apareceu tanta gente de barba, com o punho ao alto e muita bandeira vermelha, a gritar palavras de ordem, foi absolutamente incrível.

Respondendo agora à tua pergunta, não, não teve influência nenhuma, foi absolutamente igual ao ‘litro’, o nosso interesse era musical, nunca andamos metidos em política e mesmo mais tarde, quando começamos a escrever, apenas as músicas ‘Queda dos Anjos’ (Rosete) e ‘TVWC’ é que tiveram alguma censura, mas pelos canais da igreja.

F: Como te surgiu o gosto pela música e a necessidade de formar uma banda?

JG: A minha meta sempre foi formar um grupo de pessoas que tivessem ideias comuns para evoluirmos enquanto músicos e alcançar eventualmente o sucesso.

Na altura aqui no Porto não se passava nada, o único convívio que tínhamos era no café Orfeu, que estava aberto até às duas da manhã. Neste café havia três grupos fundamentais, o grupo político de esquerda, que era o maior, o do futebol, onde estavam Pinto da Costa, Hernâni Gonçalves, Pedroto e Nuno Brás, que era locutor da RTP, e o musical, onde eu me incluía.

O espantoso é que nós estávamos todos os dias, até a hora de fecho do Orfeu, a falar de música, a que passava nas rádios, dos discos que iam sendo editados, etc, tudo aquilo nos empolgava de tal forma que não nos cansávamos de falar sobre música.

Mas há um momento, que nunca mais esqueço, foi quando ouvi pela primeira vez música ao vivo. Um dia fomos assistir a um ensaio, numa garagem de um vizinho nosso, que tinha piano, bateria, baixo e guitarra, e ficamos tão doidos com aquilo, com aquele som, que quando saí disse logo, ‘epá temos que formar um conjunto’, até porque já havia bastantes raparigas à volta a ver (risos). Este foi o momento marcante, aquele som ao vivo ainda hoje me ecoa quando penso nisso. Só que nenhum destes meus amigos quis enveredar pela música.

Um dia a minha mãe comprou-me uma guitarra Hofner, modelo Telecaster, para aí em décima mão, e quem me ensinou a tocar foi o Edmundo, que era guitarrista, irmão mais velho do Kalu, baterista do Xutos & Pontapés, eles eram doze irmãos e eu passava a maior parte do tempo em casa dos pais deles.

Entretanto soube que na Rotunda da Boavista morava um tipo que tinha uma bateria em casa, que era o Rui Taborda, fui à procura dele e desde aí nunca mais nos largamos. Vi logo que o Rui era a pessoa indicada para uma parceria, queria muito vingar na música e impressionou-me nele a imaginação e a criatividade. Passou a ir comigo para o Orfeu e a partir daí pensamos em formar um grupo, nasceram os Sticky Fingers. Eu era vocalista e guitarrista mas cedo percebi que tinha que trabalhar muito para ser um guitarrista mediano, mais tarde desisti da guitarra.

F: Um tempo depois juntas-te a uma outra banda ainda mais a sério….

JG: Sim, havia um grupo rival que era o Pesquisa, com o Henrique Oliveira (guitarra), um viola baixo, um baterista e um vocalista, que era o João Pequeno, um vizinho meu, como eu era mais alto que ele, eu era o João Grande (risos), o João Pequeno era fraco de voz, e como eu tinha algum jeito para cantar, um dia o Henrique convidou-me para ser a voz principal do grupo.

O Rui Taborda tinha jeito para teclados, convenci então o Henrique a integra-lo também na banda e assim foi, na altura tínhamos um técnico de som, que era o Rodrigo, que nos tempos livres tocava bateria, e nós vimos logo que tinha jeito para a coisa e como o nosso baterista se entregou aos estudos, o Rodrigo entrou na banda. Acabaram os Sticky Fingers e integramo-nos no Pesquisa.

Entretanto o Rui deixa os teclados, passa para viola baixo e entra o Luís Ruvina, filho do dono da melhor casa de música do Porto, e aí foi realmente o grande salto da banda, passamos a ter bastante material à disposição.

Atingimos alguma notoriedade e o Avelino Tavares, que foi o criador do ‘Mundo da Canção’, ficou nosso manager e arranjava-nos concertos por todo o país. Começámos então a ser conhecidos, com a evolução do grupo, surgiu a necessidade de sermos criativos, de compor e escrever as nossas próprias letras e músicas, ter a nossa identidade e deixarmos de ser uma banda de covers.

F: Em 1977 editam o vosso primeiro single…

JG: Sim, fomos a Lisboa gravar à Rádio Triunfo, despesas todas do nosso bolso, saíram para aí uns mil discos, mas não adiantou nada (risos), foi só para dizer que tínhamos um disco na mão.

F: Quando nasce a banda TAXI?

JG: Em 1979, sai o Luís Ruvina e entendemos que devíamos mudar o nome da banda, deixou de ser Pesquisa, até porque eu não gostava nada daquele nome, e escolhemos TAXI. A escolha deveu-se ao facto de ser uma palavra dita/conhecida em muitos países e como nós cantávamos em inglês, e tínhamos a ambição de ter uma carreira internacional, achamos a escolha acertada.

F: Entretanto acontece uma oportunidade de darem um salto na carreira…

JG: Sim, fomos tocar ao Colégio Alemão, que era frequentado por muitas raparigas (risos), mas sem nós imaginarmos, o Tózé Brito e o António Pinho foram lá ver-nos actuar, na altura eram os caça-talentos da Polygram (Universal). Eles adoraram o concerto, onde intercalávamos músicas nossas, com covers de Genesis, Rolling Stones, etc. No final apresentam-se no nosso camarim, ficamos empolgados com tamanha surpresa, e perguntaram-nos se queríamos gravar um disco. Nós caímos de costas logo (risos), o coração disparou, indescritível, estávamos em 1980.

Fomos a Lisboa gravar o disco, com o António Pinho como produtor, gravamos durante cinco dias, nós tínhamos tudo muito bem ensaiado e as coisas correram muito bem, mas antes, aquando do convite, o António Pinho disse-nos que tínhamos que cantar em português, não há bela sem senão, eu nunca tinha cantado em português, tivemos que refazer as letras todas, o Pinho deu-nos uma ajuda preciosa na produção do disco, na forma de cantar certas palavras e frases, e acabou por correr tudo bem.

Na época a Polygram era uma multinacional com muita força nas rádios, na promoção e divulgação das músicas dos seus cantores. Entretanto também aparecem programas de divulgação musical, como a Febre de Sábado de Manhã, do Júlio Isidro, onde fomos apresentar, em primeira mão, a música ‘Chiclete’, e ficamos impressionados com o imenso público a saltar e a vibrar com uma música nossa, foi absolutamente fantástico.

F: Saíram do anonimato…

JG: Exactamente de um momento para o outro deixamos de ser quatro parolos aqui do Porto, para sermos conhecidos no país inteiro.

F: Achas que a banda contribuiu para o alavancar do rock português e para o aparecimento de novas bandas?

JG: Sem dúvida, há um momento chave, que deu origem ao boom do rock cantado em português, são os anos 1980/81, com os álbuns ‘Ar de Rock’ de Rui Veloso, ‘À Flor da Pele’ dos UHF e o nosso disco ‘TAXI’, acho que a partir daqui a juventude acordou para o que de bom se fazia em Portugal.

F: Que bandas ou músicos mais te influenciaram na escolha de um rumo musical para a tua carreira?

JG: Sem dúvida nenhuma foram os Beatles, em termos de música de disco, foi um fenómeno muito particular que não tem paralelo em mais nenhum outro grupo, agora em actuação ao vivo foram os Rolling Stones. Além dos Stones, identificamo-nos também com David Bowie, T-Rex, Sweet, sei lá, uma panóplia de outros grupos.

Diferentemente de outras bandas nacionais, nós sempre nos pintámos, vestíamos roupas a querer dar nas vistas, cheias de cores, brilhantes, calças a boca-de-sino, socas, camisolas estampadas, às vezes camisa e gravata, e se há uma coisa que o 25 de Abril nos deu, foi a possibilidade de adquirirmos esses adereços e essas roupas com mais facilidade. Lembro que íamos a Inglaterra de malas vazias e as trazíamos cheias de roupa (risos).

F: 1981 editas o álbum ‘TAXI’, imaginavas que irias obter um sucesso estrondoso com este disco?

JG: Como eu te disse, nós tínhamos a crença inabalável que iríamos obter sucesso mas uma coisa é nós termos essa crença outra era consegui-lo, por vezes é estarmos na hora certa no local certo, há pessoas que se esforçam toda a vida, têm qualidade no que fazem mas nada acontece de extraordinário.

F: Tiveram sorte…

JG: Nós tivemos sorte mas a sorte dá muito trabalho, passamos os anos 70 a aplicar-nos, a tentar ser perfeitos, a dedicar-nos por inteiro à música, não queríamos ser outra coisa que não músicos. Faltava alguém reparar em nós, faltava o clique para podermos disparar. Estávamos cientes do nosso valor mas com os pés bem assentes na terra.

F: Foi o primeiro disco de ouro do rock português, tendo vendido mais de 60.000 cópias em poucos dias. Nos teus melhores sonhos, pensaste numa coisa destas?

JG: Claro que não, de repente vendemos mais de 60.000 cópias, dois discos de ouro, nem pouco mais ou menos, nem tão pouco a editora, ia sempre uma comitiva connosco assistir aos concertos, por vezes até o presidente, não sabiam o que nos haviam de fazer. Eu sabia (risos), o que nos pagavam era uma vergonha, o que nos valeu foram os royalties, mas pronto, era assim que estava assinado, nada a fazer, se calhar sem eles nunca teríamos obtido tanto sucesso.

Ganhávamos depois nos concertos, mas curiosamente a fase dos TAXI em que ganhamos mais dinheiro foi quando regressamos em 2010, já havia mais empresas com material de palco e já não precisávamos estar a investir em material.

Aliás, nisso éramos muito parecidos com os UHF, pois tal como eles, nós durante a nossa carreira, investimos muito em material, tudo o que ganhávamos era para melhorar o nosso som e a iluminação de palco, tínhamos o nosso próprio PA, ou seja, possuíamos o material necessário para montar num palco e começar a fazer música com qualidade.

F: Outro momento marcante na vossa carreira foi 1981, no Dramático de Cascais, na primeira parte do concerto dos Clash, achas que este acontecimento ajudou ao ‘boom’ da banda?

JG: Muito! Sabes na altura as rádios eram um instrumento muito valioso na divulgação do trabalho de um artista, não passavam apenas uma música, aos poucos passavam o álbum inteiro, diferente de agora em que passam apenas uma música de determinado cantor até à exaustão.

O disco tinha saído há muito pouco tempo, ainda não sabíamos qual seria a reação do público, como tu sabes, naquela época, os grupos que faziam as primeiras partes das grandes bandas eram quase corridos a pontapé, embora com aquele nervoso miudinho, entrámos com confiança e a coisa correu muito bem.

F: O público ficou impressionado com vocês….

JG: E eu com eles (risos), o que mais me impressionou, foi que o disco tinha saído há pouco tempo e o público sabia de cor as letras de todas as canções que cantámos naqueles 20 minutos, curiosamente naquele dia de manhã tínhamos gravado em Cascais, o videoclipe da canção ‘TVWC’, que nos tinha corrido também muito bem.

Acabamos a actuação e o público pediu encore, saímos do palco, e ainda lembro da nossa cara, olharmos uns para os outros, alucinados por ouvir o público gritar por nós, voltamos ao palco e ‘desfizemos’ literalmente o pavilhão com a música ‘Chiclete’, foi muito, muito bom. Foi das melhores noites de toda a nossa carreira.

F: Foi uma loucura…

JG: Foi como tu disseste há bocado, o Dramático tinha aquela carga enorme, já lá tinha estado noutros concertos e sabia bem como era aquele ambiente e ter um público inteiro a chamar por nós, imagina uns miúdos de vinte anos a viver e a sentir aquilo, foi uma coisa….

F: Durante aqueles momentos em que conviveste de perto com os Clash, aprendeste algo que pudesse ter sido útil na vossa carreira musical?

JG: Nós convivemos pouco com eles, tiramos umas fotografias juntos, mas repara, no início dos anos 80, as coisas eram muito diferentes de agora, os palcos eram muito simples, sem ecrãs luminosos atrás, luzes, etc.

Eles estavam a fazer uma tournée mundial, estavam noutra dimensão em termos de projecção internacional, tinham muita força de guitarras, tal como nós, mas no que respeita ao som, estavam muito a frente, tu sabes que é muito importante para qualquer conjunto a qualidade do som, ainda hoje quando o assunto vem à memória, costumo dizer ao Rui, que não me lembro de ter um tão bom som de palco como aquele que tivemos com os Clash, e isso foi fundamental, e é fundamental em qualquer concerto.

O António Pinho foi connosco ao concerto, nós íamos tocar com a aparelhagem deles, e ofereceu uma garrafa de vinho do Porto ao técnico de som dos Clash, se calhar por isso, fez-nos um sound check fabuloso, ficou brutal, ainda hoje nos lembramos o paraíso que foi sentir no palco tudo a bater, fantástico, foram muito simpáticos e profissionais connosco. Respondendo a tua pergunta, não aprendemos mais daquilo que já sabíamos, eles tinham era outras posses que nós não tínhamos para poder adquirir material de ponta.

F: No álbum (TAXI) traças uma imagem da época, desde os viciados no jogo dos flippers (em voga na altura), criticas os programas televisivos, em como as pessoas eram usadas e descartadas, a um país sem lei (pós-revolucionário) e à sexualidade, que era um assunto tabu, até ao início da década de 80. Este disco é o espelho da vossa irreverência, usam a conquistada liberdade de expressão para criticar o ‘sistema’?

JG: É como te digo, na altura quando escrevemos as letras, não foi a pensar ‘bora lá escrever isto porque agora já podemos dizer tudo’, não. Até como te disse mais atrás, as cenas políticas passaram-nos completamente ao lado, quisemos retratar sim, os acontecimentos sociais da época, principalmente o que se passava com a malta da nossa idade, os seus anseios, a adaptação às novas formas de entretenimento e de vida, que se abriram depois de 74.

O disco teve essa virtude, conseguiu passar a mensagem, as músicas eram todas muito boas e ainda hoje nos concertos temos que as tocar, o público exige que as toquemos. É engraçado que, 40 anos depois, as pessoas ainda saibam as letras de cor e as cantem connosco, impressionante, ainda se reveem naquelas canções.

F: Há uma música no álbum que pouca gente se refere a ela pelo nome correcto, para uns ‘A casa da Rosete’, para outros apenas ‘Rosete’; ‘Queda dos Anjos’ é uma ‘história’ baseada num caso real ou do vosso imaginário?

JG: Eu tive um amigo de mais idade, que vivia em Amarante, um certo dia estávamos a conversar e de repente ele diz-me ‘epá, oh João, eu todos os meses vou às meninas, o meu carro até já sabe o caminho’ (risos). A casa das meninas, era uma moradia antiga, no Alto da Maia, onde a Rosete era a matriarca, e tinha um grupo de umas dez ou doze meninas….

Antes de mais quero fazer-te um reparo, tu estás a olhar para uma pessoa que nunca gastou um tostão em meninas, nunca, mas tenho pena de nunca lá ter ido, ao menos ficava a saber in loco como as coisas funcionavam e se processavam (risos). Algumas vezes pensava nisso, mas a minha maneira de ser impediu-me sempre de dar o passo em frente.

Ele contava que a Rosete vinha recebê-lo à porta, entrava para a sala, ela mandava vir as meninas, dessas meninas ele escolhia uma e lá ía para o quarto com a escolhida, e mais uns detalhes que não vou aqui mencionar (risos), pegámos naquela história e conseguimos retratar na perfeição, em cerca de três minutos de música, o que se passava naquela casa. Há uns tempos atrás foram-me mostrar o local onde se situava a casa da Rosete, mas já foi demolida, portanto a letra da música foi baseada naquilo que esse meu amigo me contava.

F: Em relação às letras de algumas músicas incluídas no disco, pergunto-te….

‘Chiclete’ – sentias-te descartável?

JG: Não. Sabes, na altura em que nós começámos as editoras viram no rock um filão enorme para ganhar dinheiro e começaram a contratar tudo e todos. E aí sim, muitos grupos foram completamente descartados, gravavam uma música não tinham vendas eram logo postos fora, não lhes davam segunda chance.

‘TVWC’ – hoje a TV ainda te faz sofrer mais que no WC?

JG: Nós somos do tempo em que só havia dois canais e o segundo quase ninguém via, e isso permitia termos a certeza quase absoluta que quando aparecíamos num determinado programa tinhas um país inteiro a ver-te.

Hoje em dia com a quantidade de canais que existe se te virem é uma sorte, se naquela altura havia programas de qualidade duvidosa e que eramos ‘obrigados’ a ver, pois não havia alternativas, actualmente existem muitas mais alternativas mas a qualidade baixou também muito em parte devido à guerra de audiências, hoje sofre-se ainda mais que no WC.

‘Às dos Flippers’ – eras craque nos flippers?

JG: Não, nunca tive jeito (risos), para se saber jogar bem era preciso passar horas de volta daquilo e colocar muitas moedas na máquina, não tinha paciência para isso, nem dinheiro para gastar nos jogos.

‘É-me igual’ – hoje ainda te é igual?

JG: Não, mas depende do contexto, o meu lema de vida é o oposto a esse, preocupo-me muito com tudo aquilo que faço e as consequências que tem. Agora, se lanço um disco e há pessoas que não gostam, temos pena (risos), é-me igual, há quem goste.

‘Lei da Selva’ – 40 anos depois tens ainda a mesma visão das ruas?

JG: Acho que hoje em dia está muito pior, antes era a lei das ruas, agora é a lei dos países, se olharmos para o que se passa a nossa volta a nível mundial e vermos um presidente como o dos EUA ou do Brasil, é inacreditável, cenas de violência policial, epá hoje está muito pior que a selva das ruas, é uma selva institucionalizada.

F: Mudando um pouco de assunto…

F: Como foi a tua convivência com o Rui Veloso aqui no Porto, havia rivalidade entre vós ou nem por isso?

JG: Nenhuma rivalidade, era uma óptima convivência, tocámos muitas vezes com ele, por acaso, ainda ontem, estive a ver o programa Alta Fidelidade, em que ele esteve presente.

A música do Rui não tinha nadinha a ver connosco, para já tocava sozinho, a editora é que depois lhe arranjou o Zé Nabo e o Ramon Galarza para tocarem com ele, o Rui era muito reservado e não teve aquilo que nós tivemos, que foi quatro amigos, que se juntaram num objectivo comum, num clube como o da bolinha, aqui menina não entra, muito restrito, nunca deixámos ninguém assistir aos nossos ensaios e que tinha um sentido de união muito forte.

Ele poderá ter tido isto, em alguns momentos, com o Carlos Tê, mas lamentava-se muito na altura e chegava a dizer, vocês são os quatro, eu estou aqui sozinho, mais tarde ele foi viver para Lisboa. Nunca houve rivalidade mas sim uma grande amizade.

F: Em Lisboa os UHF lutavam com os TAXI pela liderança dos tops nacionais. Vias os UHF como o vosso grande adversário musical/comercial, havia muita rivalidade, como lidavam com isso?

JG: Com os UHF sim (risos), havia uma grande rivalidade, enquanto que com os Heróis do Mar, Rádio Macau, Rock & Varius, e tantos outros, nos cumprimentávamos e falávamos, com os UHF, nada, apenas os víamos de longe. Ao fim e ao cabo o que isso era, não era nada mais nada menos que o respeito, tínhamos um grande respeito pelos UHF.

Então, quando acontecia termos que partilhar o palco havia sempre problemas com os técnicos, saber quem começava primeiro, quem fechava o espectáculo, quem ficava com a maior parte do palco, antes disto, a guerra começava logo nos cartazes dos eventos, quem ficava com o nome por cima, com mais destaque, etc. Havia sempre problemas entre a nossa equipa de produção e técnicos e os deles (risos).

Ainda há pouco tempo falei com o António Manuel Ribeiro e contei-lhe uma peripécia que aconteceu num festival que houve em Vila Real de S. António, a praça de touros completamente cheia, uma daquelas noites incríveis, e que nós chegamos tardíssimo, e os UHF eram para fechar o festival.

Tivemos uns problemas na viagem e chegamos já tarde de táxi, nem trazíamos material, já tínhamos telefonado a avisar e perguntar se os UHF nos deixavam usar o material. Eles disseram que sim.

Fomos fechar o festival e agora imagina o som que eles nos puseram (risos), não imaginas, devem ter posto só os tweeters a funcionar (gargalhadas), uma iluminação miserável, tanto que à segunda música interrompi o concerto e disse, ‘queria pedir aos técnicos de som para abrirem um bocadinho, senão ninguém ouve, parece uma igreja’.

Curiosamente, a primeira vez que nos falamos foi numa festa de lançamento de uma revista, de um jornal, que era do Carlos Cruz, que juntou muitas bandas e cantores, Lena D’Água, Heróis do Mar, Rádio Macau, Rui Veloso, UHF, TAXI, etc, e então foi tirada uma fotografia de grupo, nunca mais encontrei essa fotografia, gostava de a ter no meu arquivo, em que estão todos os convidados, eu e o António ao centro de mão dada ao alto, foi a primeira vez que falámos um com o outro. Para mim foi muito giro e marcante, um momento inesquecível e que guardo na memória. A partir daqui a rivalidade passou a ser também uma grande amizade.

Quero contar-te uma coisa curiosa e que me deixou imensamente contente, há cerca de um ano estava a conversar com o António e de repente ele disse-me, ‘vou dizer-te uma coisa, nós quando estávamos em viagem ouvíamos sempre as vossas músicas, todos as cantávamos, era uma festa dentro do carro’. Fiquei orgulhosamente feliz.

F: Com todo este sucesso a vossa vida mudou completamente…

JG: Totalmente, viagens, concertos pelo país, não havia autoestradas, demorávamos horas a chegar aos locais, neste particular fomos mais massacrados que os UHF porque nós quase todos os fins-de-semana íamos a Lisboa. As coisas não eram tão planeadas como agora, às vezes tínhamos um concerto em Chaves e outro no dia seguinte em Albufeira.

F: Em 1982 editas o álbum Cairo, mais um disco de ouro. Noto um disco mais introspectivo, concordas?

JG: O Cairo ainda há pouco tempo foi referenciado num livro como um dos 100 melhores discos da música portuguesa, não concordo nem de perto nem de longe. O álbum TAXI foi o nosso melhor disco.

Nem me vou atrever a dizer que o Cairo foi feito com o que sobrou do disco TAXI, até porque fizemos canções novas, mas houve umas duas ou três que tinham sobrado do primeiro álbum. Tem grandes músicas, ‘Cairo’, ‘Hipertensão’, ‘Fio da Navalha’ que para mim é uma das minhas favoritas. Na altura não éramos introspectivos, malta nova, muita alegria, queríamos era curtir.

O álbum foi feito no rescaldo do sucesso do anterior, tem uma boa capa mas não foi tão pensado, o álbum TAXI esteve anos a ser elaborado e o Cairo não. Por pressão da editora tínhamos que lançar qualquer coisa e assim nasceu, tem boas músicas mas ficou aquém do anterior.

F: Em 1983 gravam ‘Salutz’, um álbum que foi apresentado na abertura do concerto de Rod Stewart, o que tens a dizer sobre este álbum e como foi o contacto com uma lenda da música pop/rock?

JG: A apresentação do álbum foi um fiasco, nós estávamos na altura a gravar o ‘Salutz’, um disco onde eu tive pouca participação, andava cansado, de modo que apareci só para a gravação. Se queres que te diga, eu nem gostava do disco, muito sintético, usamos bateria electrónica… enfim.

De repente aparece alguém da editora a dizer, ‘epá, conseguimos que vocês fossem fazer a primeira parte do concerto do Rod Stewart’, é esta a grande força das editoras, o Rod deveria ser da Polygram, e nós fomos os escolhidos.

E cometemos um erro de palmatória que foi ir para um concerto tocar para milhares de pessoas, músicas que elas nunca tinham ouvido. Elas queriam lá saber de músicas novas, estavam lá para ouvir o Rod Stewart e nós tocamos na íntegra o álbum. Foi muito chato, batiam palmas por simpatia.

F: Tiveste uma boa experiência com o Rod Stewart?

JG: Foi óptimo, ele é espectacular, adoro o Rod Stewart, lembro-me que ele começa a cantar e eu pensei, ‘isto vai ser um fiasco, ele está afónico’, mas depois da terceira música, a voz aqueceu (risos) e foi um espectáculo, nunca mais parou, sempre a abrir até final. Na altura o guitarrista do Rod era muito amigo do Zé Nabo, tinham tocado juntos no grupo Objectivo, o Zé veio assistir ao concerto e no final ainda conversamos. Foi uma experiência muito boa.

F: Em 1985, editam a balada ‘Sozinho’, sentias mágoa, nostalgia, ingratidão, que sentimentos tinhas naquela altura, querias estar sozinho?

JG: Não, esta música nunca foi autobiográfica, o que aconteceu foi o seguinte, nós estávamos a atravessar um problema existencial, estávamos cansados, passámos os anos 70 todos sempre a tocar e a ensaiar, e continuou pelos anos 80, mas agora com muito mais pressão, e não nos saía nada.

Acontece que o Marinho, presidente da Polygram, veio-nos pedir por favor para gravar um quarto disco, dissemos que não tínhamos material para um álbum mas tínhamos duas músicas prontas, então fomos para Hamburgo para gravar um single.

As músicas eram ‘Sozinho’ e ‘O Céu Pode Esperar’, só que esta ficou muito fraquinha, então foi resolvido gravar duas versões do ‘Sozinho’, lado A em Português e o B em Inglês.

F: Em 1986 o grupo, para enorme tristeza dos fãs, anuncia o fim, a que se deveu esta inesperada decisão?

JG: Antes da gravação do nosso último álbum ‘The Night’ já tinha começado a haver alguns atritos entre nós. Aquelas cenas de ciúmes em que um sente que está a ter menos protagonismo que o outro, etc.

Na altura também houve um problema com o Rodrigo, o nosso baterista, teve problemas complicados com a droga mas que felizmente conseguiu superar por ele mesmo, foi espectacular, inclusivamente escreveu um livro sobre isso, e actualmente ajuda pessoas que estão a passar por problemas idênticos.

No entanto as coisas ainda estavam suficientemente bem para conseguirmos compor aquele que eu considero um dos nossos melhores discos.

Após a edição do disco, convoquei uma reunião e disse ao Henrique, contigo não canto mais. Não estava em questão a qualidade musical do Henrique que era muita, só que já não havia sintonia, ideias diferentes, estávamos quase sempre em desacordo e como estou, e estava, na música para me divertir e não para me chatear, decidi assim. Os TAXI pararam nessa altura.

F: Editam o álbum ‘The Night’ exclusivamente cantado em inglês. Porquê o regresso às origens, depois do sucesso alcançado cantando em português?

JG: Olha, foi mais uma tentativa de alcançar o mercado internacional, só que a Polygram não promoveu o disco, tiveram muitas despesas na gravação mas depois sabe-se lá porquê não investiram na promoção e um disco que não é promovido não existe.

F: Mas mesmo depois de se terem separado e até 2009 vocês ainda se juntavam esporadicamente para tocar…

JG: Nos juntávamos para tocar quando nos convidavam para algum evento especial ou comemorativo de alguma situação, mas o ambiente agudizou-se de tal forma que não havia qualquer hipótese de voltarmos a tocar juntos, com a idade também nos tornámos menos tolerantes.

Por vezes nos encontrávamos aqui e ali mas nunca falávamos dos TAXI, parecia um assunto tabu, sabíamos que era assunto que nos trazia uma grande mágoa, tivemos na mão uma grande oportunidade de nos divertirmos, de fazermos o que gostamos e desperdiçamos essa oportunidade.

F: Em 2009 regressam com a formação original e editam o álbum ‘Amanhã’, parecia que os TAXI estavam relançados, o que correu mal depois disso?

JG: Quando regressamos em 2009 e editamos o álbum ‘Amanhã’, foi com o pressuposto que as divergências estavam ultrapassadas e que íamos continuar juntos enquanto grupo, só que após a edição do álbum, os problemas vieram a tona.

F: Em 2012 formas com o Rui Taborda a banda Porto, e editas o álbum de originais ‘Persícula Cingulata’, com temas como ‘Para Sempre’, De Mão em Mão’, ‘Onda do Meu Mar’, que tiveram algum sucesso. Em 2017 voltam como TAXI, porquê esta indefinição, no nome da banda, para prosseguirem a carreira?

JG: A explicação é muito simples, começámos a compor as nossa músicas mas a sonoridade não tinha nada a ver com os TAXI, era mais à base de piano e teclas, então para não confundir os fãs, formamos a banda Porto, um projecto autónomo. Foi um disco totalmente gravado pelo Rui, na sua casa, masterizado nos EUA, e lançado como um projecto de autor. Depois disso começámos a gravar mais à base de guitarras, uma sonoridade muito mais TAXI.

F: Desse regresso à sonoridade dos TAXI, nasce a música ‘Reality Show’ que foi um sucesso, é a versão dois, do TVWC, 40 anos depois?

JG: (risos) De certa forma sim, é a história de um padeiro do Seixal, que de repente ficou famoso, teve os seus momentos de fama, mas rapidamente viu que para ter paz de espírito o melhor era voltar a ser padeiro.

F: Ainda durante 2017 acontece novo revés, os ex-colegas de banda interpõem uma providência cautelar que vos impede de usar o nome TAXI, e escolhem T4X1, sentiste que era o fim de um sonho, de recuperar um nome e um projecto musical que está gravado na história do rock em Portugal?

JG: É verdade, vamos para tribunal e na primeira audiência o juiz deu-nos razão, eles recorreram e na segunda audiência foi-lhes dada razão, vamos então para a acção principal e conseguimos chegar a acordo, prevaleceu o bom senso e a situação ficou resolvida, em Junho deste ano.

O T4X1 foi uma denominação transitória porque já estávamos com concertos marcados e como não podíamos usar o nome TAXI, arranjamos um que foneticamente é diferente, mas visualmente tem semelhanças.

F: Desde a formação, os TAXI tiveram o nome no jornal, foram caso nacional, ficaram bem conhecidos e acabaram no tribunal. Foi uma vida de cão?

JG: Estes últimos 3 anos foram, de resto os TAXI foram muito além dos meus melhores sonhos, tudo o que se passou connosco superou completamente todas as nossas expectativas. Tivemos uma vida muito boa, fazíamos o que gostávamos e ainda nos pagavam por isso.

Agora estes últimos 3 anos, garanto-te que foi muito, muito, complicado mas felizmente acabou bem que é o que interessa.

F: Depois desta decisão em tribunal e por tudo o que passaste nestes últimos anos, achas que é a nova vida dos TAXI?

JG: Totalmente, é uma nova vida, já temos cerca de 15 músicas originais gravadas prontas a editar em álbum, mortinhos para o pôr cá fora, esta situação pandémica atrasou tudo, mas estamos com muitos projectos.

F: A vontade de fazer coisas novas, de seres irreverente em palco é a mesma de há 40 anos atrás?

JG: Completamente, quando estou em palco parece que sou outra pessoa, estou no meu mundo de fantasia mas que ao mesmo tempo é real. Quando canto músicas de há 40 anos atrás, aquele tempo passa-me pelo meu imaginário como um flash e sinto-me um eterno adolescente. Ver o público cantar, pular e dançar músicas feitas por nós é a realização de um sonho, de criança, tornado realidade.

F: Fala-me dos teus novos projectos, do que tens na calha e do teu entusiasmo para dares uma nova vida à banda?

JG: Temos muitos concertos reagendados, estamos a pensar numa digressão completamente diferente, que é o tal segredo que não te posso revelar, mas acima de tudo quero que tudo corra bem.

Enquanto me sentir bem a tocar, cantar, ensaiar, gravar, etc, e isso me der prazer, com profissionalismo é claro, mas ao mesmo tempo com muita diversão, os TAXI continuarão a tocar para os fãs.

F: Como estás a sentir esta pandemia, tem-te prejudicado em termos profissionais?

JG: Imagina, quando um dos dias mais felizes da minha vida recente, o dia 1 de Junho, chegámos a acordo sobre o futuro dos TAXI, parecia que se abria uma autoestrada à nossa frente, com um disco pronto a ser editado, concertos pelo país, logo tudo se começou a afunilar até que fechou. Veio prejudicar imensamente, é um ano que está a ir completamente à vida, é um ano completamente apagado.

O que temos feito é compor, o nosso disco já estava fechado mas não impresso, então nada nos impedia de continuar a compor, por acaso duas das melhores músicas compusemo-las agora e irão substituir outras do alinhamento inicial, por isso sem stresse, nas calmas, temos estado a trabalhar com vista à continuidade dos TAXI.

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