Festival Maia Compact Records escreveu um capítulo na história do rock

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O festival Compact Records Fest’22 trouxe à Maia, três dias de música, de 18 a 20.03, e um alinhamento de luxo no que a bandas diz respeito. Sem esquecer o conflito na Ucrânia, a organização do festival doou parte das receitas para ajudar os refugiados em Portugal.

A celebrar 25 anos de actividade comercial, a Compact Records quis assinalar a data com concertos de música pop/rock trazendo bandas do topo nacional e internacional.

Em cartaz, formações que foram Top no anos 80, estou a falar de Human League, banda formada por Philip Oakey que nos traz logo à memória as canções ‘Mirror Man’, ‘Fascination’ ou ‘Human’, entre muitas outras, e a sua parceria com Giorgio Moroder em ‘Together In Electric Dreams’, e dos OMD (Orquestral Manoeuvres in the Dark) com Andy McCluskey e Paul Humphreys, membros fundadores da banda em palco, lembrando canções como ‘Enola Gay’ ou ‘Souvenir’, ambas são bandas britânicas formadas no final dos anos 70.

O que sobressaiu nestes dois concertos foi a (ainda) qualidade vocal, jovialidade e agilidade que os intérpretes destes dois grupos demonstraram em palco, levando a plateia ao rubro, onde a maioria nem sequer era nascido quando estas bandas atingiram o auge do sucesso.

Os Human League e os OMD fecharam o primeiro e o segundo dia do festival Compact Records que contou ainda no primeiro dia com os The Gift, banda de Alcobaça, com quase 30 anos de carreira, liderada por Sónia Tavares e que dispensa apresentações, que tocaram temas de sucesso como ‘Fácil de Entender’, ‘Driving You Slow’, ‘Clássico’ e muitas outras.

O segundo dia abriu com os americanos The Last Internationale, um grupo de hardrock, liderada por Della Paz, que estenderam a passadeira a duas bandas que marcaram a história do rock em Portugal, estou a referir-me aos TAXI e aos UHF, dia que fechou com os OMD. Adiante iremos falar detalhadamente sobre este momento, para mim, histórico.

No último dia estiveram em palco os ‘The Legendary Tigerman’, banda formada por Paulo Furtado, precisamente há 20 anos, que conta com inúmeros sucessos comerciais, numa mistura de vários géneros musicais que vão desde o pop/rock, ao blues rock.

Em seguida os Mão Morta, liderada por Adolfo Luxuria Canibal, com quase 40 anos de carreira, conta ainda com Miguel Pedro como membros fundadores, depois da saída do mentor do projecto Joaquim Pinto em 1990, com um estilo pós-punk/death rock, sempre bem expresso pelo vocalista, com as suas coreografias em palco, dando-nos a imagem de um zombie.

Os britânicos Editors, banda consagrada, com duas décadas de actividade e inúmeros sucessos musicais, num estilo indie/pos-punk, trouxeram inúmeros fãs que lotaram o pavilhão do complexo desportivo para ouvir ‘Papillon’ ou ‘Sugar’, por exemplo. A fechar o festival estiveram os belgas dEus, um grupo de indie/art rock com mais de trinta anos de palco e que tocou temas como ‘Roses’ ou ‘Instant Street.

A actuação dos TAXI mostrou um João Grande em boa forma, os anos não passaram por ele, a agilidade e irreverência em palco, sempre foi a marca do vocalista portuense, fora do palco é o oposto, um homem calmo, metódico e concentrado, sendo acompanhado pelo baixista Rui Taborda, também ele membro fundador e mais três músicos que compõe o grupo.

Os TAXI são quanto a mim um fenómeno, não tanto de popularidade, mas de musicalidade. Quem acompanhou a história do grupo sabe dos problemas que, inerentes ao sucesso, foram acontecendo no seu trajecto, chegaram a pensar em desistir, felizmente não aconteceu. No sábado durante a sua actuação, e num regresso a um grande palco, transmitido em directo na rádio M80, no alinhamento apenas constavam canções que foram êxitos há 40 anos atrás, o público que enchia o pavilhão, sabia as letras de todas as canções, fazendo coro com o vocalista. Impressionante como a sonoridade destes músicos virtuosos atravessou gerações mesmo sem serem presença assídua nas rádios.

Num alinhamento que contou com os principais êxitos dos TAXI, onde faltou a ‘Hipertensão’ e um tema ou outro ao álbum ‘The Night’, estou a lembrar-me de ‘Dance, dance, dance’ um grande trabalho discográfico dos TAXI que teve pouca divulgação, mas com apenas uma hora de palco não se podia pedir mais. Destaque ainda para a homenagem às vítimas da guerra na Ucrânia, feita por João Grande, com a bandeira deste país enrolada ao corpo na apresentação em palco, assim como o lançamento de papelinhos azuis e amarelos durante a canção ‘Chiclete’ a encerrar o concerto.

Alinhamento: Cairo – TVWC – Queda de um Anjo (Rosete) – É-me Igual – Não Sei Se Sei – 1, 2, Esquerdo, Direito – Sozinho – Fio da Navalha – Sing Sing Club – Meu Manequim (c/Francisca Oliveira) – Ás dos Flippers – TAXI – Vida de Cão – Chiclete

Os TAXI deram então lugar aos UHF no palco do complexo desportivo da Maia. Cheios de predicados, não tenho adjectivos que cheguem para classifica-los, os UHF superam-se em cada grande concerto que dão. Com a saída de Luis Simões ‘Cebola’, baixista da banda, foi a estreia de Nuno Correia num grande concerto dos UHF e esteve em grande nivel.

Os UHF abriram as ‘hostilidades’ com a música ‘Ucrânia Livre’, em homenagem às vítimas da guerra na Ucrânia, ‘parece uma ofensa ao povo ucraniano estarmos aqui a divertirmo-nos enquanto eles sofrem, mas a música leva mensagens de paz, harmonia e união. É a pensar neles este concerto’, disse AMR no palco da Maia.

No alinhamento, onde faltaram inúmeros sucessos musicais, numa hora era impossível cantar todos, não faltaram os ‘Cavalos de Corrida’ e ‘Rua do Carmo’ temas emblemáticos que marcaram o início da carreira. Sempre sóbrio, comunicativo e interventivo, AMR tocou a todos com a sua voz forte, com um timbre diferenciado e único, colocando os fãs, que encheram o espaço, a cantar, saltar e vibrar com as suas músicas.

Apoiado pela guitarra de Sergio Côrte-Real, que deu um espectáculo em palco, um pouco em contraste com o baixista Nuno Correia, não na qualidade que é muita, mas na exuberância, talvez mais contido por ser a sua estreia nos UHF nestes ambientes, e na bateria por um sempre excepcional Ivan Cristiano, AMR é a voz e o rosto dos UHF.

Alinhamento: Ucrânia Livre – O Vento Mudou – Rapaz Caleidoscópio – Matas-me Com o Teu Olhar – ‘Bora Lá – Vejam Bem – Modelo Fotográfico – Brincar no Fogo – Um Copo Contigo – Cavalos de Corrida – Nove Anos – Rua do Carmo – Acende Um Isqueiro – Menina

O Compact Records Fest’22 escreveu um capítulo na história do rock português

Os TAXI e os UHF são, pois, as duas principais bandas impulsionadoras do rock cantado em português, até então achava-se que tal não seria possível, estávamos no final dos anos 70 inícios de 80, em que se vivia um período pós-revolucionário, de juventude irreverente.

De repente soa nas rádios nacionais ‘Chiclete’ e ‘Cavalos de Corrida’, o que é isto?! perguntávamos nós. Era o início daquilo que seria uma nova era na música nacional e que tudo mudou, musicalmente falando.

Foi o denominado ‘boom do rock cantado em português’ com o lançamento dos álbuns ‘TAXI’ e ‘À Flor da Pele’, já agora fazendo justiça à história, ‘Ar de Rock’ de Rui Veloso, que rapidamente atingiram a marca de discos de ouro tendo o ‘TAXI’ sido o primeiro.

Não vou contar aqui a história dos TAXI ou dos UHF para isso remeto-os para as entrevistas que fiz a João Grande e a AMR, o que pretendo é assinalar o momento em que se fez história no Compact Records, na Maia.

Na época, estamos a falar do início dos anos 80, havia uma grande rivalidade entre os TAXI e os UHF, disputavam tudo ao pormenor, desde a montagem do som, sequência em palco, ambos queriam fechar a noite musical e até no alinhamento do cartaz a promover o evento havia discussão, quem estava em mais destaque, tinha letras maiores ou ficava por cima. Era a rivalidade norte/sul alimentada em grande parte pelas editoras.

Hoje grandes amigos, João Grande e António Manuel Ribeiro, vocalistas das suas bandas, tiveram trajectos diferentes, os UHF tocam há mais de 40 anos ininterruptamente fazendo deles a banda de rock com maior longevidade em Portugal, os TAXI tiveram um percurso intermitente, regressando há uns anos para o que parece ser um regresso definitivo aos palcos. A música portuguesa agradece, nós agradecemos, eu agradeço.

O momento histórico que eu muito ansiava, como fã adolescente que vibrou com o lançamento dos primeiros álbuns deles, não é apenas porque com orgulho posso dizer que sou amigo de ambos, nem tão pouco porque fui o fotógrafo oficial dos dois grupos neste concerto, mas sim porque 40 anos depois estas duas bandas pisaram o mesmo palco, uma a seguir a outra, agora sem rivalidade e com muita amizade. É uma alegria enorme ver os TAXI de volta aos grandes palcos e poder estar presente.

Quando lançaram os seus sucessos musicais, tinha 15 anos, nunca imaginaria que 42 anos depois estaria a vivenciar com emoção, embora com alguma nostalgia e certo saudosismo, o renascer de uma época. Espero em breve poder estar de novo em grandes concertos com eles, é um sinal positivo para a o rock português.

A propósito quis saber do João o que representou para ele este concerto.

João, o que representou para ti este concerto em ambiente de guerra na Europa, acumulado com uma pandemia, e poderes sentir 40 anos depois as emoções de estares no mesmo palco com os rivais de outrora. Que imagens te passaram pela mente?

Respondendo à tua pergunta e francamente, não pensei em nada. Sempre que subo a um palco, estou incrivelmente focado para que tudo corra bem. Não entram mais nenhum pensamento a não ser a reacção do público. E não parecendo, estou atento ao mais ínfimo pormenor.

Inicialmente, tínhamos combinado um dueto com o AMR durante a nossa actuação e depois outra durante os UHF. Mas por falta de tempo e ensaio, não foi possível. É claro que fomos assistir a parte da actuação dos UHF, mas eu não sou nada saudosista. Para mim, e neste momento, os TAXI e os UHF são duas bandas que co-existem, com muitos projectos para o futuro, com a grande diferença face ao passado, que haverá sempre muitos abraços e provas de amizade.

Quanto à guerra, ninguém em seu perfeito juízo, consegue ficar indiferente e não ajudar de alguma maneira a nação ucraniana. Foi de facto o que me passou pela cabeça quando comecei o concerto, envergando a bandeira da Ucrânia. Quase que pedimos desculpa por nos estarmos a divertir, enquanto está a decorrer uma guerra terrível como aquela. É nossa obrigação chamar a atenção de toda a maneira possível.

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