É ténue a fronteira entre os caminhos que se escolhem e aqueles para os quais somos empurrados. Sobretudo para quem a periferia é casa — e as ruas, escola. Da música aos filmes, a herança que ilustrou e, simultaneamente, moldou gente como Ovilton Santiago perpetua essa narrativa por vezes enviesada. Mas na hora de a documentar fiel à sua verdadeira realidade, poucos artistas no hip-hop nacional têm-no feito com a honestidade e perícia de Real GUNS. Negro é mais um capítulo dessa história, particularmente importante para compreender toda a trama do filme que tem Real GUNS como grande protagonista.
Em boa e inadvertida hora chega um novo trabalho no seguimento de um ano sem paralelo na discografia do rapper luso-são-tomense: depois de SOG e SOG II, do díptico London e Lisboa e do reencontro com as raízes em FELA, Negro impõe-se agora como um trabalho de renovado fôlego conceptual nesse percurso incansável. E neste capítulo desse percurso há um próprio trajecto a desenhar-se ao longo dele: Negro não se fica pela reportagem de um ponto de partida, resulta antes numa reflexão em tempo real das origens e desfechos relatados ao longo do disco.
Disco este que caminha da resignação à lucidez, carregando a ideia transversal de que nenhum destino — com todos os empurrões pelo meio — está escrito à partida. Não será, aliás, apenas uma feliz coincidência que a composição sonora de todo o projecto esteja entregue a um produtor que assina por Consciência, responsável pela concretização instrumental refinada de um disco tão aprimorado quanto cru a nível musical.
E mais simbólica ainda se revela a participação pontual de LBC, rapper da velha guarda com um papel determinante nas vidas dos filhos do seu bairro — inclusivamente na do próprio Ovilton Santiago — enquanto artista, activista e referência comunitária. A própria capa desteNegro pinta todo um imaginário antes de as mil palavras de GUNS lhe darem cor. Quem a protagoniza é um desses filhos do bairro que têm em gente como LBC e Real GUNS referências de quem, sabendo de onde vem, ainda tem tudo por escrever.