Esteves escala os Alpes com o Folk sem perder de vista o Rock e conta-nos tudo

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A FOCUSMSN foi ao encontro de Esteves para uma conversa a propósito do recente lançamento ao vivo do seu segundo álbum ‘O Alpinista’. Vocalista da banda Rock Trêsporcento, o músico, cantautor, compositor e instrumentista, embarcou numa aventura a solo e numa onda musical completamente distinta, o Folk.

FOCUSMSN: Como nasceu o teu gosto pela música?

Esteves: Tenho que recorrer às minhas memórias (risos), sempre tive gosto pela música, o meu pai tinha um ‘leitor de vinis‘, vulgo gira-discos, e havia dois discos que eu ouvia frequentemente, um era o ‘Canto da Boca’ de Sérgio Godinho e o outro o ‘Concerto ao Vivo em Central Park’ de Paul Simon & Art Garfunkel.

De maneira que chegava a casa da escola, ainda muito jovem, 10/11 anos, e ficava a ouvir aqueles discos, não só os ouvia como seguia as canções lendo as letras que vinham impressas com o disco do Sérgio Godinho. Mais tarde aprendi a tocar guitarra e o interesse pela música desenvolveu-se.

F: Em 2009 formas a banda rock Trêsporcento. Como te surgiu a ideia de formar uma banda e qual a origem do nome?

Esteves: Começou no liceu, na altura eu e mais uns colegas íamos para uma sala de ensaios fazer barulho, de modo que esteve sempre presente fazer música em grupo, por isso a formação dos Trêsporcento foi algo natural, queríamos fazer uma banda e ela nasceu.

O nome Trêsporcento acabou por aparecer por não haver consenso entre nós sobre o nome a dar a banda. Um dia estávamos a sair de um ensaio e na rua estava um cartaz político enorme a dizer ‘três por cento de inflação …’, um de nós disse, ‘olha se nos chamássemos trêsporcento já tínhamos aqui um outdoor (risos), ficou Trêsporcento.

F: Ouvindo tu Sergio Godinho e Paul Simon & Art Garfunkel, na infância, como surgiste numa banda com uma onda musical completamente distinta? Estavas na idade da irreverência?

Esteves: Os Trêsporcento são um conjunto de pessoas, cada uma delas com gostos musicais próprios, no fundo atiraram-se esses gostos para uma panela e depois de cozinhados deu Trêspocento (risos).

Curiosamente começamos a tocar com guitarras acústicas. Eu e o Lourenço Cordeiro trabalhávamos num gabinete de arquitectura e começamos os dois, depois juntamo-nos a uns amigos com quem tocávamos covers com material acústico. Quando começamos a escrever as coisas evoluíram muito rápidamente e acabamos por trocar as guitarras acústicas pelas eléctricas.

Nesta altura as nossas influências musicais eram os Radiohead, Bloc Party, The Strokes, mais tarde The National, etc., estávamos na onda que marcou o início da banda. Estávamos na idade da irreverencia e de querer ser estrela Rock, a viver essa ilusão.

F: Os Trêsporcento tiveram uma actividade bastante proficua no que a álbuns diz respeito com a edição de quatro discos, dava a entender que a banda veio para ficar. De um momento para o outro embarcas num projecto a solo, uma sonoridade diferente, trocas a guitarra eléctrica pela acústica, o Rock pelo Folk.

A que se deveu esta radical mudança ou achas que não foi tão radical assim, mas uma evolução em termos de identidade musical para uma sonoridade com a qual te identificas mais e o projecto Trêsporcento foi um experimentalismo que te ajudou a encontrar o rumo certo?

Esteves: As duas sempre existiram em mim, sempre tive um lado Rock e um lado Folk, gosto muito do Rock, daquela expressividade sem filtros, de fazer barulho, poder gritar, ver o público a saltar, mas também sempre gostei de tocar guitarra acústica, aquela coisa do fingerstyle, que é muito Indie.

Os Trêsporcentro não acabaram, o problema é que o Lourenço Cordeiro foi viver para o Luxemburgo logo após a edição do álbum ‘Território Desconhecido’, continuamos com vontade de fazer música, aliás vamos tocar no Montijo dia 22 deste mês, de modo que estamos a tentar arranjar uma maneira de trabalharmos à distância porque temos muita vontade de fazer coisas novas.

F: Com o décimo aniversário da formação dos Trêsporcento, em 2019, editas o teu primeiro álbum ‘Esteves’, foi uma forma de celebração dois em um, celebrar a longevidade da banda e a tua estreia com um álbum a solo?

Esteves: Foi por acaso, aliás, em 2019, os Trêsporcento deram um concerto ao vivo de celebração no Ferroviário. O que aconteceu foi o seguinte, eu regressei da Austrália em 2016 e já trazia muitas músicas na bagagem. Três anos foi o tempo que demorei a arranjar músicos para formar uma banda, compor os arranjos, etc., de modo que quando lancei ‘Esteves’ coincidiu com o décimo aniversário da banda.

F: Que músicos te inspiraram neste teu novo projecto musical?

Esteves: São muitos, poderia estar horas a nomeá-los porque de facto há muitos projectos Folk com os quais me identifico, mas a grande descoberta, enquanto gravava o primeiro disco, foi Mark Kozelek, foi um ponto de viragem na escolha da minha sonoridade.

F: No teu álbum de estreia a solo, duas músicas tiveram destaque imediato ‘Vista de Cima’ e ‘Fiji’. As letras destas músicas são sobre situações imaginárias? Gostavas de ver o planeta lá de cima, alguma vez pensaste em mudar-te para as Fiji e casar com uma nativa?

Esteves: (risos) ‘Vista de Cima’ é uma mensagem explicita, é falar sobre a fragilidade do nosso planeta quando observado do espaço pelos astronautas, quando em órbita, eles sofrem o Overview Effect uma mudança cognitiva da consciência e eu tento colocar-me na posição deles.

Em relação à música ‘Fiji’, a letra foi inspirada num jovem biólogo americano que conheci na ilha principal e que namorava com uma nativa. Ele foi para lá sozinho fazer um levantamento dos corais, levantava-se de manhã cedo, vestia o fato de mergulho e lá ia ele. A viver num local paradisíaco, a fazer o que mais gostava e namorar com uma nativa, imaginei eu que deveria estar a viver um sonho, foi o mote para a letra da música ‘Fiji’, partiu daí a inspiração para a música.

F: Na letra da música ‘Fiji’ dizes ‘não há limites nem fronteiras nesta vida’ em termos musicais o que ambicionas?

Esteves: Gostava de ser autossuficiente e ter condições para fazer a música que gosto, tentar ganhar a vida com isso e não ter desilusões. As desilusões muitas vezes tiram-nos estímulo e inspiração.

F: Este mês vais actuar no Montijo com a banda Trêsporcento, um concerto agendado há um tempo atrás mas que a pandemia foi adiando. Achas que podes conjugar a actividade do grupo com a tua carreira a solo, sentes que o Rock te complementa preenchendo um espaço que o Folk não abrange?

Esteves: Completamente, tocar em palco com uma banda, com cada um a puxar pelo outro, sentir essa vibração no público, é uma coisa que só o Rock proporciona. O Folk é intimista, mais contido, menos exteriorizado, fazendo uma rápida analogia o Folk é Yoga e o Rock é Zumba (risos).

F: Lançaste recentemente, ao vivo no B.leza, o teu segundo álbum em vinil ‘O Alpinista’. A tua carreira musical tem sido como escalar os Alpes? Porque editaste o disco em vinil?

Esteves: (risos) Não, está bastante consistente, ainda não houve grandes picos, nem grandes quedas, é uma subida lenta, mas firme, encaro-a como uma maratona. Quanto ao nome do álbum, pareceu-nos bem dar o nome Alpinista, não só porque é a primeira música do disco, como o disco poderia ser uma metáfora para a viagem de um alpinista. Como quem trepa uma montanha e conta aquilo que o mundo tem para mostrar.

Em relação à edição em vinil foi só porque sentimos que a edição em CD nos dias que correm já não faz sentido e como queríamos ter uma edição física optamos pelo vinil que é mais clássico e o saudosismo do vinil está muito presente.

F: Neste teu novo trabalho pareceu-me que o teu lado melancólico, introspectivo e sentimental, está ainda mais reflectido nas tuas letras. Concordas com a minha análise?

Esteves: Completamente, o Folk puxa por isso, as letras têm mais a ver com a observação, perceber a vida, a nossa e a dos outros, colocar-me no lado deles e entender porque sentem ou não sentem determinadas situações, no fundo é uma constante introspeção.

No Rock, em particular nas letras dos Trêsporcento, há um lado mais urbano, mais social, histórias de amor também, mas muito menos introspectivo e pouco sentimental.

F: Que diferenças destacas, entre este teu trabalho mais recente e o anterior?

Esteves: São completamente diferentes, o primeiro foi editado com vários trechos de coisas que eu ia gravando, tem muitas camadas e o som, diria eu, mais etéreo.

Nesse álbum gravamos duas músicas em live take, ‘Vista de Cima’ e ‘Salto’, gravei-as, com o João Gil e o David Santos, em ensamble e gostei muito do som resultante, de maneira que este segundo álbum nasce com a ideia de se fazer uma estrutura muito simples de piano, guitarra e contrabaixo, e sobre isso fazer arranjos minimalistas. A base deste disco foi uma sonoridade simples, mais trabalhada, ao contrário do anterior que tinha muitas camadas.

F: Consideras-te uma pessoa nostálgica?

Esteves: Não, sou uma pessoa que vive o dia-a-dia e sobretudo o futuro, sempre confiante naquilo que a vida me poderá dar, sou bastante optimista. Acho que se não tivermos esperança no futuro não conseguimos viver o presente.

F: Que projectos, desejos e ambições tens para o teu futuro profissional?

Esteves: Para já que tudo corra bem com a promoção deste álbum, que o consiga apresentar ao vivo em diversos locais do país. Estamos a organizar um tour para depois do verão. Já temos algumas datas, este mês em Penafiel, dia 8 de Setembro na casa da música, e estão-se a marcar mais algumas coisas para o final do ano. Depois disto, gravar um terceiro álbum que já está escrito e composto, só falta ir para estúdio.

Foi assim a entrevista com Esteves, uma conversa descomplexada, divertida e sem filtros, com muita risada pelo meio, tendo como cenário o jardim da Estrela.

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