‘As Canções da Casa Escura’ o novo disco a solo de AMR, um álbum de memórias

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Está disponível a partir de 9 de Abril, o terceiro disco a solo de António Manuel Ribeiro, fundador e o eterno vocalista dos UHF.

“Em pequenino, como na foto da capa, a minha mãe dizia que eu era um miúdo traquinas, irrequieto, sempre a inventar, a saltar, a partir um braço (logo aos 5 anos) quando me lancei da cobertura do viveiro dos piriquitos (acho que eram piriquitos, mas podiam ser canários, a paixão do meu pai funcionário público e tenor amador) e fracturei o antebraço direito. Fui tratado a preceito no velho hospital de Almada, esperneando à vista de uma seringa, sujeito às dores, ao gesso branco e aos mais velhos a segurarem-me esparramado na marquesa, naquele lugar de cheiros desinfectados encostado aos Paços do Concelho da cidade.

Um dia, no final de uma tarde invernosa, levaram-me ao doutor Grilo, o pediatra almadense que terá cuidado do crescimento de 95% da malta do meu tempo, e a minha mãe tinha uma fisgada: que o senhor doutor me desse um comprimido (calmante?) para estar sossegado, sentado numa cadeira, encafuado no sofá.

Receoso e de coração galopante, calado e tremelicas aguardei o veredicto – a pequena estatueta do padre Cruz iluminada pelo candeeiro sobre a secretária olhava-me com severidade. Mas foi a minha mãe que recebeu de receita um raspanete de que ainda hoje guardo o tom na memória.

De estatura baixa e jovial, vi o doutor Grilo sair de trás da ampla secretária de madeira, postarse à frente da minha mãe e ralhar: «Oh Florbela, tenho aqui mães desesperadas com os filhos afogados em maleitas e tu vens-me pedir para tirar a vivacidade e a energia ao teu filho, francamente. Deixa-o correr, é sinal de que tem saúde».
Saímos do consultório e fomos a pé até à casa, no alto da colina de Almada, onde nasci. Derrotada caminhava, resmungando – a minha mãe não ficara convencida.

Para tentar colar-me ao assento e ao tédio, a minha mãe criou um “papão” e uma “casa escura”, o primeiro para me domesticar pela sua figura horrenda (ela vestia-se de trapos e assustava-me à janela virada para o quintal), e o segundo como lugar de desterro num quarto ao fundo da casa, sem janela, na escurtidão. Sobrevivi.

Em As Canções da Casa Escura reúno canções que fui guardando para o tempo certo, espécie de colheita em repouso, sem barrica de carvalho. Chegaram até hoje; juntei-as agora e adoro a sua coerência, vindas de diferentes ilhas da inspiração e dos episódios que vamos visitando nesta fisicalidade.

Solitário gravei, num período de confinamento social por imposição sanitária.” contou António Manuel Ribeiro na Antena 1

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